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Pequeno império da liberdade

Quilombolas de São Benedito do Céu dominaram fazendas e uma vila na região de Viana, no Maranhão

atualizado 08/03/2025 12:35

O Quilombo São Benedito do Céu era habitado por mais de 600 pessoas e não parava de crescer. Abrigava quem fugia dos trabalhos forçados, acolhia quem temia o recrutamento para a Guerra do Paraguai. Era uma potência econômica e militar da região de Viana, no Maranhão. Por isso, seus líderes acreditaram que acabar com a escravidão era um destino. Em julho de 1867, um exército negro ocupou as fazendas e uma vila próximas. Não foi uma ação desesperada, mas uma manifestação de força.

No dia 08 de julho o grupo dominou a Fazenda Santa Bárbara, transformando-a em quartel-general. Os líderes da insurreição, Daniel e João Araújo, decidiram enviar uma mensagem às autoridades de Viana. Nela, um aviso: queremos liberdade e paz – senão estamos prontos para a guerra. Como os escravizados não eram alfabetizados em português, obrigaram o administrador da fazenda, capitão Placidio Mello dos Santos, a escrever a carta histórica. Segue a íntegra:

lmos. Senhores delegado e Comandante do Destacamento de Viana Santa Barbara, 10 de julho de 1867

Comunico a Vas. Sas. que nos achamos em campo a tratar da liberdade dos cativos, P. tanto. Que esperamos p. ella, e como o noço dezejo é par contodos e não fazer mal a ninguem esperamos p.  ella em Santo Ignacio e quando não apareça athe o dia 15 do méis vindouro não teremos remédio senão lançar-mos mão das armas e la hirmos, podendo Vªs. Sªs. contarem que temos 1000 armas de fogo e contamos com todos os arcos dos gentios em noça defesa e da liberdade, e espero que não tomem este avizo p. graça é muito seria esta noça deliberação e assim se privinão, e esperamos pela resposta amanhã p. todo dia.

Somos de Vªs. Sªs. Daniel Antº de Araújo e João Antonio de Araujo

Os próximos passos foram tomar o Engenho Timbó, a Vila Nova de Anadia e a Fazenda São José. Nesses lugares alimentaram seu arsenal com mais armas, munições, comida e escravizados dispostos a lutar. A notícia se espalhou rapidamente, e o pânico dos senhores brancos chegou ao Vale do Itapecuru, Baixada e do Litoral do Estado.

Mas antes de contar mais sobre esse levante, vamos voltar ao quilombo e falar um pouco sobre seu cotidiano. Todas essas informações estão presentes no artigo “As identidades quilombolas contemporâneas: nuances das experiências do Maranhão”, assinado pelo historiador Josenildo de Jesus Pereira na Revista Embornal, da UECE – Universidade Estadual do Ceará. Já citamos esse texto em outra oportunidade.

Banhado pelas águas do rio Bonito, o quilombo contava com oitenta casas e era duas vezes maior que a Praça da Matriz da Vila de Viana. Pairavam sobre a mesa das famílias os cultivos da lavoura, da caça e da pesca, a farinha e uma dose de cachaça – havia três alambiques, além de uma tenda de ferreiro e teares.

O ouro extraído das minas era trocado com os comerciantes e fazendeiros por pólvora, chumbo, armas e outros gêneros. “Para completar o arsenal de defesa do quilombo, muitos homens e mulheres e até crianças trocavam dias de serviço, por chumbo e pólvora, em roças de alguns fazendeiros da região”. Negociar com os quilombolas garantia aos proprietários que suas terras não fossem invadidas. É a política da boa vizinhança – e o reconhecimento da força dos pretos.

A divisão do trabalho repetia a lógica do campo. Os homens ocupavam-se da defesa do quilombo, da extração de ouro e do furto de gado.  As mulheres zelavam pelas roças de mandioca e arroz, pela produção de farinha, a criação de galinhas e os afazeres das casas.

As invasões às fazendas próximas eram comuns, porque a demografia se impunha. Como os homens eram maioria, os quilombolas raptavam escravizadas para equilibrar a população. Por isso o levante de julho foi uma surpresa, porque revelava uma nova escala de insurreição. Voltemos a ela.

O desfecho da ação quilombola

Armados e reforçados, os quilombolas acreditavam que as forças policiais estavam enfraquecidas, já que muitos soldados foram enviados ao chaco paraguaio. Mas um grupo foi criado com voluntários e policiais de outros municípios. E adotaram uma tática inesperada. Ao invés de tentar retomar as fazendas e a Vila Nova Anadia, o objetivo foi destruir o quilombo. Pólvora e sangue semearam essa terra entre os meses de julho e setembro de 1867, com muitas baixas para os dois lados. Muitas casas foram destruídas e pessoas foram presas. Até que a liberdade foi derrotada.

As condenações dependeram do grau de participação no movimento e ficaram entre açoites, ferro no pescoço por anos, a prisão com trabalho e as galés. Foram sentenciados três homens livres e trinta e dois escravizados. O quilombo foi desmantelado, mas os sobreviventes fundaram novas povoações na região.

O levante do Quilombo São Benedito do Céu não foi um disparate. A liberdade era mais que um espectro que rondava o coração dos pretos e a agonia dos brancos. Era palpável. Durante o inquérito, perguntaram à quilombola Pulcheria qual era o objetivo da insurreição: “os seus companheiros saíram do quilombo para guerrear com os brancos por causa da lei dos pretos, isto é, para serem considerados livres”.

O artigo afirma que dois anos antes, o Conselheiro José Thomaz Nabuco de Araújo informava ao ministro e secretário de Negócios da Justiça do estado, que “a população escrava da província era superior, em número, à livre. E que, na Capital, existiam pretos livres a quem não eram estranhas as ideias que nestes últimos tempos se tem manifestado em favor da emancipação dos escravos.”

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